Veículo do Saber

12/09/20080 comentários

O Projeto de Pesquisa Científica “Veículo do saber: uma via de mão dupla na formação de acadêmicos e de catadores de papel em Belo Horizonte/MG”  foi desenvolvido em 2006 através da parceria entre a Universidade FUMEC (Belo Horizonte) e a Associação dos Catadores de Papel, Papelão e Materiais Recicláveis de Belo  Horizonte (ASMARE).

Sob a coordenação de Flávio Fabrino Negrão Azevedo teve-se por objetivo o desenvolvimento de um veículo para a coleta de materiais recicláveis que fosse produzido com matérias primas de baixo impacto ambiental e de fácil manejo,  e que pudesse ser empregado como instrumento de capacitação aos catadores. 

Aula de geometria para associados da ASMARE nas  dependências  da FEA/ FUMEC (imagem: Flavio Negrão)

Linha de mobiliário desenvolvida a partir do reaproveitamento de pallet (imagem: Flávio Negrão).

Trabalho compartilhado entre aluno e catador: adequação da grade do Veículo no chassi (imagem: Flavio Negrão).

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Conheça mais sobre o projeto lendo o artigo científico apresentado no 4º Seminário de Extensão da Universidade Fumec – 08 a 10 de maio de 2007 e publicado no Caderno de Artigos 2006 da Universidade Fumec.

Veículo do saber:uma via de mão dupla na formação de acadêmicos e de catadores de papel em Belo Horizonte/MG

Professores Coordenadores: Prof. Flavio Fabrino Negrão Azevedo e Camila Carvalhal Alterthum

Alunos Bolsistas: Claudia Margutti, Joanna Sanglard, Gilberto Ribeiro da Silva

O projeto de extensão universitária, que teve início em 2006, foi o desdobramento de ações anteriores desenvolvidas junto à ASMARE. Em 2005, alunos e docentes fortaleceram a troca de conhecimentos e experiências com este grupo social, que trabalha “na ponta” das atividades que geram o setor produtivo da reciclagem. Um convênio entre a ASMARE, o Reciclo Asmare Cultural e a Prefeitura de Belo Horizonte, forneceu subsídios, através de bolsas, para que um trabalho de desenvolvimento de produtos em eco-design fosse criado em conjunto com os associados.

A parceria gerou um conjunto de informações sobre sustentabilidade, eco-design, meio ambiente, tecnologias construtivas, marcenaria, mecânica, elaboração de projetos, entre outras. Diversos alunos do curso de Design, Arquitetura e Engenharia tiveram oportunidade de construir conhecimentos junto a esta comunidade através do trabalho conjunto nas oficinas de marcenaria, costura, objetos decorativos, e papel, com a participação de crianças da creche ASMARE. Além disso, esses alunos participaram da produção da IV Edição do Festival Lixo e Cidadania, que reúne entidades e empresas de todo o Brasil para debater questões relacionadas a manejo de resíduos sólidos, emprego de materiais reciclados e reaproveitados na construção de mobiliário, objetos de decoração e ferramentas de trabalho, cooperativas para catadores de materiais reaproveitáveis, políticas sociais voltadas para as camadas populares, como geração de renda, educação e habitação.

O trabalho (ainda em 2005) contou, em uma de suas vertentes, com o desenvolvimento de um novo protótipo de veículo coletor de materiais recicláveis (VCS). Este trabalho é fruto da participação no concurso de Design de Caráter Social – UNISOL do Governo Federal, estando nossa equipe MALOCAR entre as oito finalistas, com o protótipo exposto no Instituto Tomie Ohtake45. Já em 2006, obtivemos a aceitação da Universidade FUMEC para subsidiar o projeto social, que aconteceu no período de Fevereiro a Novembro. A equipe era composta de três discentes e dois docentes da Universidade FUMEC, e uma docente voluntária de outra instituição de ensino superior. A proposta de trabalho pelo viés da extensão universitária está elucidada nos seguintes objetivos: 

1. Capacitar trabalhadores da ASMARE para a construção de veículos coletores mais seguros, práticos, viáveis e de menor impacto na saúde do trabalhador;

2. Contribuir para a autonomia dos catadores de papel, no sentido de dominarem integralmente o processo de construção de seus veículos coletores, sua principal ferramenta de trabalho; 

3. Ampliar os conhecimentos e a aplicabilidade de materiais reciclados, reaproveitados e de manejo sustentável (bambu) na construção de veículos coletores e demais produtos nas oficinas da ASMARE; 

4. Contribuir para as atividades desenvolvidas nas oficinas de artes e ofícios da ASMARE, além das ações realizadas na creche que atende às crianças da associação;

5. Oferecer conhecimentos acadêmicos na área de design, engenharia e arquitetura, que possam facilitar esse processo (geometria, maquetaria, estruturas); 

6. Enriquecer a formação dos acadêmicos com os conhecimentos trazidos pelos trabalhadores da ASMARE; 

7. Sensibilizar a academia para a importância desta troca de saberes.

As experiências vividas com os associados da ASMARE nos fazem refletir sobre a temática da metodologia de ensino. Como todo projeto de intervenção, seja ele extensionista ou propriamente de ensino aos alunos de graduação em arquitetura, design e engenharia, partimos de uma idealização de como efetivar a prática pedagógica. O cuidado para não “idealizar” no sentido de mascarar a realidade foi tomado desde o início; no entanto, era preciso partir de um marco inicial, que se pautou em nossa experiência docente da didática projetual.

Os cinco associados, trabalhadores da marcenaria, tiveram na primeira etapa do trabalho aulas de geometria e maquetaria na própria FUMEC. Eram orientados pelo professor coordenador e pelos alunos bolsistas sobre o manejo das ferramentas de desenho, como jogo de esquadros, escalímetro e compasso. Esta orientação tinha o intuito de capacitá-los para projetar com mais facilidade e autonomia. A maquete do carrinho era sempre o eixo condutor destas aulas, o que já indicava nosso cuidado com a metodologia de ensino, que não poderia abordar um objeto aleatório, distante da realidade deles.

Por aproximadamente 3 meses, esta estratégia se mostrou interessante. A partir daí, o nosso “modelo escolar” precisou ser revisto. A dinâmica de trabalho e de vida desta população, imersa em constantes experiências de exclusão social, passou a ser um entrave na realização das aulas. O que poderia parecer apenas um detalhe ou um contratempo, já era algo sinalizado por duas pesquisas realizadas junto a essa população. “Suas rotinas se estruturam geralmente a partir de demandas imediatas para a sobrevivência do grupo. É o trabalho do dia que sustenta a sopa da noite…” (ALTERTHUM, 2005, p. 37). Nesta perspectiva, a formação para o trabalho se torna elemento secundário, assim como diversas tentativas de formação que compõem o cenário da evasão escolar para o segmento dos catadores de papel e suas famílias.

Partimos, então, para um outro processo de construção de conhecimento. Criamos uma nova estratégia de capacitação daqueles sujeitos, que buscou, antes de mais nada, estar sensível à realidade deles. O modelo escolar adotado no primeiro momento foi cedendo espaço a uma dinâmica de diálogo com o cotidiano daqueles sujeitos; não só de atenção à vida deles, mas principalmente de diálogo com o trabalho da marcenaria. Ensinar sobre projeto a alguém que já faz isso intuitivamente ou empiricamente tornou-se um desafio para nós.

O ensino da prática projetual passou a acompanhar a demanda de trabalho dentro da marcenaria da ASMARE. Os objetos de estudo, que antes estavam voltados prioritariamente para o veículo de coleta seletiva (VCS), agora abrangem outras demandas da oficina de marcenaria. Podemos citar, como exemplo, a criação e confecção de uma linha de mobiliário para escritório e sala de estar, e a idealização de uma nova bancada de triagem, que melhor atenderia aos catadores no seu oficio.

Mais uma vez nos chama atenção a questão da metodologia de ensino. A experiência de avaliação e aprimoramento da grade do veículo coletor nos sinalizou a importância da troca de conhecimentos entre os sujeitos da ASMARE e os alunos da FUMEC.  Compartilhar da vasta experiência desses marceneiros em consertar e construir VCSs foi um rico processo de aprendizagem para os alunos da graduação, que tinham como costume aprender entre as quatro paredes das salas de aula. Havia ali saberes que jamais seriam veiculados num quadro negro ou numa elaborada tela projetada em data-show.

Com a intenção de democratizar o diálogo entre o veículo e seu condutor, na busca de um constante aprimoramento da grade do VCS, diversos catadores foram selecionados para testar o protótipo. A escolha contemplou, num dado momento, a família de dona Maria, uma das fundadoras da associação. Como exemplo de trabalho em equipe, Maria e seus filhos se revezavam na coleta e triagem do material “garimpado” pelas ruas da cidade. Este processo produtivo transitório possibilitou que o veículo fosse operado por condutores com percursos, biótipos e demandas diferenciadas, ampliando, assim, o leque de informações sobre a performance da grade no trabalho diário de coleta de material reciclado. Apesar da perceptível melhoria atingida após a colocação de contraventamentos em cabo de aço, pôde ser percebido que a forma em tronco de cone ainda incomodava os condutores, principalmente quando o veículo trafegava com uma carga acima de 450 Kg.

Na busca do constante aprimoramento e visando atender aos apontamentos dos catadores, diminuíram-se as angulações da grade, que passou a ter a forma de um prisma reto. O frutífero diálogo entre todos os sujeitos que estiveram envolvidos na confecção da grade do carrinho endossou um dos fundamentais princípios deste projeto de extensão: trabalhar na perspectiva do desenvolvimento de produtos sustentáveis. Para Manzini e Vezzoli (2005, p. 187), a otimização da vida de um produto sustentável passa necessariamente pela questão da possibilidade de criação de serviços para sua manutenção, reparação e qualificação. Ao participar da avaliação de desempenho do VCS e do conseqüente aprimoramento e manutenção do mesmo, o catador ingressa no ciclo de vida como elemento fundamental que garantirá o princípio da sustentabilidade do produto VCS. Ele não só mantém seu posto de serviço, como também pode garantir sua manutenção, reparação e requalificação. Desta maneira, efetiva-se uma tendência do pensamento acadêmico contemporâneo que prega o Life Cycle Design46 num setor produtivo elementar, que é o trabalho dos catadores de papel.

Considerações finais

Dentre muitas questões que instigaram nossa equipe de trabalho durante o ano de 2006, a metodologia de ensino e as diversas dimensões de aprendizado que permearam o projeto foram as que mais nos motivaram a escrever o presente artigo. A “via de mão dupla” do aprendizado que se instalou entre os sujeitos do meio acadêmico e da ASMARE indica a riqueza que pode haver num trabalho acadêmico que se propõe a romper com os muros do ensino formal. A experiência de capacitar os agentes de limpeza urbana através de um projeto de extensão universitária reforça cada vez mais que as dicotomias e a hierarquia entre os saberes e os sujeitos de distintas ocupações sociais não cabem mais em nossa sociedade, que se pretende justa e equânime. O que nos propusemos a fazer, na condição de academia, foi reduzir a distância entre sujeitos que sofrem processos de exclusão social e um direito elementar: o conhecimento. Ao invés de negar seus saberes, buscamos sua valorização, construindo coletivamente conhecimentos que podem contribuir para a redução de algumas barreiras sociais que ainda relegam este segmento da sociedade a um segundo plano. A relação direta com os trabalhadores da ASMARE possibilita que o foco da extensão da FUMEC não seja uma arbitrária intervenção de saberes eruditos sobre populações carentes de informação e direitos. O diálogo pleno ocorrido durante o ano de 2006 aponta caminhos para conferir legitimidade à interlocução dos saberes acadêmicos e dos conhecimentos já consolidados na prática profissional dos associados da ASMARE.

 Referências

  • ALTERTHUM, Camila C. O Encontro com crianças filhas de catadores de papel: sinalizações para uma creche e uma pesquisa com a “nossa cara”. Dissertação de Mestrado. Belo Horizonte. Faculdade de Educação/ UFMG, 2005.
  • FREITAS, Maria Vany. Entre Ruas, Lembranças e Palavras: a trajetória dos catadores de papel em Belo Horizonte. Belo Horizonte: PUC Minas, 2005.
  • FRANÇA, Júnia Lessa. Manual para normalização de publicações técnico-científicas. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2004.
  • NEGRÃO, Flávio et al. Veículo Coletor de Materiais Recicláveis. Concurso de Design Social do Ministério do Trabalho. Belo Horizonte:
  • FUMEC, 2005 (5 pranchas).
  • MANZINI, Ezio; VEZZOLI, Carlo. O Desenvolvimento de Produtos Sustentáveis. São Paulo: USO, 2005.

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